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Yoga é Religião?

 

Parece ser evidente que o Yoga tem em comum com algumas religiões - senão com todas - o facto de disponibilizar uma explicação acerca da existência.

 

O Yoga e as mais diversas religiões são sustentados por conceitos teóricos que tocam nos aspectos da existência e da relação do ser humano com o mundo, quer seja o mais perceptível, como o mais súbtil. Dinamizados entre práticas e entendimentos que ocorrem em grupo, assentam sobre valores morais e, muitas vezes, incluem um conjunto de rituais como a oração, a meditação, a música, entre outros.

 

Tratando-se de uma doutrina que disponibiliza uma explicação para a longínqua procura de respostas em relação à existência, e pelas outras similaridades que se verificam com as religiões, é com alguma frequência que esta questão se levanta. No entanto o yoga distingue-se das doutrinas religiosas pela sua objectividade, coerência e racionalidade.

 

O Yoga tem como objetivo moksa, que literalmente significa felicidade. Moksa define o indivíduo que atinge o auto-conhecimento, ou seja, que deixa de ser ignorante relativamente à própria natureza. Ao conhecer-se, deixa de confundir o corpo/mente com o seu Eu verdadeiro - a consciência que premeia o corpo (e toda a existência). Por outras palavras, liberta-se das limitações da mente. 

 

Este estado de moksa ocorre quando o homem reconhece brahman em si mesmo. Que o criador e o homem, brahman e atman, são a mesma coisa. Ao atingir esse conhecimento, a percepção do aspecto ilimitado intrínseco ao ser resplandece. Num conceito mais abrangente, o não manifesto e o manifesto, brahman e íshwara, são indissociáveis. 

 

A inteligência suprema, que é a causa da existência, é ao mesmo tempo toda a criação. De acordo com Georg  Feuerstein em "Tradição do Yoga": “Deus é a totalidade transcendental da existência”. Esta unidade percepciona-se ao identificarmos que todo o universo ocorre sob a alçada de uma ordem, a forma organizada como todo o manifesto interage proporcionando a complementaridade harmoniosa da existência em si mesma.

 

O yoga não se limita a teorizar, pois todo o conhecimento decorre da observação e identificação de factos concretos que não se podem negar. Não é algo que assenta numa fé, como a religiosa. Ao atingir este conhecimento, o indivíduo reconhece, necessariamente, a si próprio nos outros. 

 

Identificado o ser e a relação mente/intelecto/emoções, o yogui eliminou atitudes, valores e comportamentos baseados em crenças e em preceitos ilógicos. Desenvolveu práticas e comportamentos que o conduziram a moksa à sua própria essência. Na realidade, é um caminho para nós mesmos como um diamante que, depois de lapidado, mostra a sua verdadeira natureza e o seu brilho. 


A evolução do praticante depende do conhecimento que o individuo já trás quando nasce e do envolvimento, motivação, empenho e disciplina que este encontra ou adquire. De uma forma geral não é um caminho simples, pois há que inverter hábitos e conceitos fortemente enraizados nas culturas, sobretudo nas ocidentais. É um processo gradual. O yoga é para todos, inclusive adeptos de quaisquer religiões. O yoga é para quem se interesse por ele e não é para quem não se interesse. 

 

De uma forma geral, as religiões tendem a explicar a existência pela mão de um criador, distinto da criação em si. Assumem aspectos como a imposição, a verdadeira religião, a promessa de felicidade após a morte ou o castigo pela mão do criador, entre outras coisas mais absurdas como, por exemplo, a auto-punição. Normalmente assentam numa fé que conduz as pessoas a acreditarem cegamente em crenças, tantas vezes irracionais e contraditórias. Ao longo dos tempos discípulos de algumas religiões cometeram verdadeiras loucuras. Por exemplo, matar outros seres humanos em nome da religião. O conhecimento transmitido pressupõe a crença dos discípulos. 


Em muitas religiões é comum a intenção de fazer crescer o movimento, através da persuasão e da imposição de ideias. Assim, considerando os aspectos comuns e as diferenças entre a generalidade das religiões e o yoga, considero que yoga não é religião.

 

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Miguel Morais, 2010